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Sunday Bloody Sunday

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Gente, me desculpem se estou sendo repetitiva aqui, mas não posso deixar uma desgraça como esta que se abateu em meu estado passar em branco.
Apesar de não viver no Rio Grande a muitos anos, vivi ontem um dia negro, um dia de terror, como se um dos meus filhos estivesse na boate Kiss.

O povo gaúcho é muito unido, talvez muitas pessoas não entendam essa comoção generalizada dos gaúchos, mas, pensem num povo que ama, acima de tudo sua cultura, sua tradição, seu chão e seu povo. Assim é o gaúcho, duro de sentimentos, mas coração mole quando se trata dos seus.

Não posso deixar de pensar na centena de mães e pais que amanheceram neste domingo com a pior notícia de suas vidas. Mães que ao levantar cedo no domingo, se depararam com a cama ainda arrumada do seus filhos, mães que ligavam para xingar o filho por não avisar que ficariam fora e foram atendidas por voluntários ou bombeiros que lhes comunicaram o horror...

Santa Maria nunca mais será a mesma.

Vidas tão prematuramente ceifadas, assim, não são esquecidas.


Dificilmente alguém que perdeu seu ente querido irá ler isto que estou escrevendo, mas mesmo assim, quero deixar meu profundo sentimento de pesar, pelos gaúchos que se foram.
Quero deixar o agradecimento a todos os voluntários, que correram para os hospitais da região para auxiliar no tratamento das vítimas e de seus familiares. A Brigada Militar de Santa Maria, aos militares Exército de Santa Maria e a todos que se alguma forma se solidarizaram com esta tragédia.

Hoje cedo, lendo a Zero Hora (jornal de Porto Alegre) encontrei este texto da Martha Medeiros que quero deixar com vocês hoje.

Nós que temos filhos


Por uma infelicidade tremenda, fui ler os comentários de um site sobre o acontecido em Santa Maria e dei com uma criatura funesta que falou coisas impublicáveis. Um só. Um único demente entre tantos solidários, e pensei: precisa mais que um para lamentarmos a falta de compaixão? Porque essa foi a palavra que me invadiu desde as primeiras horas de um domingo ensolarado lá fora e nublado aqui dentro: compaixão.
Qualquer pessoa que tenha um filho ou uma filha não tem como não se colocar no lugar dos pais, dos avós, dos tios daquela garotada que saiu no sábado à noite para se divertir e que foi vítima do destino — poderíamos também chamar de descaso, insensatez, irresponsabilidade —, mas é cedo para diagnósticos precisos. Destino é uma palavra mais abrangente.
Tenho duas filhas que comumente saem à noite, dançam, se divertem em lugares fechados, e eu não faço vistorias prévias, não peço laudos, não investigo, simplesmente confio que elas estarão em segurança. Quem pode garantir? Alguém deveria, mas o destino não se responsabiliza. Nunca se responsabilizou.
Sei de dois irmãos e de um casal de namorados que tinham relações com amigos meus e que estão entre as vítimas. De íntimo, eu não conhecia ninguém. Isso me afasta da tragédia? Nada nos afasta dessa tragédia, a não ser que não tenhamos compaixão. Essa palavra não me sai da cabeça. Um mundo individualista como o nosso precisa abraçar esse conceito, esse sentimento: compaixão. Se colocar no lugar do outro. Dói, mas é necessário.
Quem não tem filhos sofre. Quem tem se arrebenta. Não é algo que se explique. Nenhum racionalismo conforta. É um soco que nos tira o ar e nos faz lembrar o que tanto buscamos esquecer: que somos todos vulneráveis diante da fragilidade da vida.
Assim como ontem, não consigo desejar um bom dia para ninguém. Como mãe de adolescente, meu coração dói muito com este episódio.
Quero deixar também esta música do U2, Sunday Bloody Sunday. Assim foi o domingo em Santa Maria.

Deus abençoe a todos!
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